Home Destaque Polêmica: quem montou as Múmias de Nazca, no Peru?

Polêmica: quem montou as Múmias de Nazca, no Peru?

1039
1
COMPARTILHE
Múmia de Nazca, captura de tela de vídeo de Gaia.com
Múmia de Nazca, captura de tela de vídeo de Gaia.com

Desde o final de 2016, as chamadas múmias de Nazca, no Peru, circulam na Internet como uma espécie de prenúncio da prova final de que a Terra teria sido visitada por seres extraterrestres há milhares de anos. Esses supostos achados arqueológicos, com formatos e histórias diversas, viraram protagonistas de um documentário seriado (“Unearthing Nazca”) apresentado ao mundo por uma empresa estadunidense denominada Gaia.com.

Com a estratégia de divulgação de Gaia, vieram à tona análises e opiniões de pesquisadores conhecidos por emprestar seu nome à divulgação pouco científica de aparições supostamente ufológicas. Um deles é o jornalista e apresentador de TV mexicano Jaime Maussan. Outro, menos conhecido no circuito da Ufologia, é o russo Dr. Konstantin Korotkov, cujo trabalho como “cientista” antes concentrava-se na pseudociência da fotografia Kirlian.

Mas há alguma verdade nas tais múmias de Nazca ou trata-se de mais uma fraude elaborada, dos tempos dessa nossa era marcada por espetáculos para Youtube e fakenews?

Segundo levantamento iniciado pelo Portal Vigília, a resposta definitiva a essa pergunta ainda pode ser impressionante, apesar de não envolver extraterrestres: elas podem ser resultado de montagens, mas não necessariamente fraudes modernas. E ainda mais: a história envolve uma disputa legal sobre a propriedade os achados, incluindo um obscuro tráfico de peças de valor arquelógico, científico e cultural que está atormentando as autoridades peruanas.

Como surgiram as múmias de Nasca

Ainda em novembro de 2016, antes de virar a série “Unearthing Nazca”, o assunto começou a circular na Internet como um achado do não menos suspeito site Hidden Inca Tours. O portal dedica-se a promover livros de seu autor, Brien Foerster, além de viagens turísticas ao Peru, explorando os “segredos e mistérios da civilização Inca”, nas quais o autor é guia.

O site iniciou a divulgação via Youtube de um crânio alongado e, em seguida, de uma ainda mais misteriosa mão mumificada, supostamente alienígena. Apresentada em fotos, radiografias e vídeos, a mão possuía três dedos finos e longos, bem maiores que os humanos, com mais falanges do que uma mão humana, e teria sido revelada por moradores de Cusco, no Peru. Segundo Foerster, um destes moradores teria encontrado o estranho fóssil quando explorava túneis do deserto perto de sua casa na cidade de Cusco. As análises de DNA da “mão extraterrestre”, prometidas por Foerster, nunca ficaram prontas.

Pouco tempo depois começaram a ser divulgados os vídeos e análises – se é que podem ser chamadas assim – de corpos completos, já com a assinatura do site Gaia.com. Um dos vídeos mais emblemáticos foi a apresentação da múmia de corpo completo, apelidada de Maria. Tratava-se de uma estrutura humanoide em posição fetal, de crânio alongado, mãos de três longos dedos, cuja estatura ereta seria de 1,68m. Curioso notar que as exibições às câmeras foram feitas em todo tipo de ambientes, inclusive a céu aberto, com equipamentos inapropriados e em todos os vídeos, sem a presença de arqueologistas (locais ou estrangeiros), para ratificar as técnicas de coleta e manuseio do material. Também não foram divulgadas imagens dos locais ou dos trabalhos de escavação.

Junto com o corpo grande, novos esqueletos, menores, entre 20cm e 50cm, com algumas características similares, também foram apresentados.

Múmias de variadas formas e tamanhos (Foto: reprodução)
Múmias de variadas formas e tamanhos (Foto: reprodução)

Não vamos apresentar aqui um relato detalhado de cada corpo, ou pedaço de múmia, mesmo porque alguns aspectos são tão diferentes entre si (além dos tamanhos), que as descrições certamente cansariam os leitores. Basta dizer que alguns têm peculiaridades bizarras, como supostos ovos no abdômen e até pedaços metálicos entre os ossos. Provavelmente, para a pesquisa em si, será mais elucidativo avaliarmos o contexto de divulgação e, mais importante, aquilo que NÃO ESTÁ sendo apresentado.

Métodos inadequados, ausência de análises científicas

Um dos aspectos que mais chama a atenção, como já antecipamos, é a exibição descuidada dos artefatos. A céu aberto, ou em salas não estéreis e às vezes com muitos espectadores, vários sem máscaras. Dificilmente uma análise científica seria realizada dessa forma. Também não existem imagens ou menções claras sobre os locais de escavação onde estariam sendo encontrados os artefatos.

Os especialistas: Konstantin Korotkov (imagens da alma) e Jaime Maussan ("flotilhas" de OVNIs). Fotos: reprodução.
Os especialistas: Konstantin Korotkov (imagens da alma) e Jaime Maussan (“flotilhas” de OVNIs). Fotos: reprodução.

Outro aspecto que faz imediatamente levantar suspeitas é justamente a ausência de pesquisadores científicos ou arqueologistas locais (ou de qualquer outro lugar do planeta) em todos os materiais de divulgação. De fato, atuam como “especialistas” basicamente o jornalista Jaime Maussan, que já chegou a classificar como “flotilhas de OVNIs” avistamentos cujo resultado seria idêntico se fossem usados balões (https://youtu.be/1rCuB4mVs-I) de hélio (bexigas de festa!), e o PhD russo Dr. Konstantin Korotkov, do qual o trabalho mais famoso versa sobre “fotografias da alma”. Há, no entanto, profusão de radiologistas, apenas para atestar informações sobre o tamanho e disposição dos ossos em si.

O portal E-Farsas, em junho de 2017, chegou a apresentar uma comparação entre um laboratório real de análise de corpos mumificados e o procedimento descuidado apresentado em Nazca, numa matéria que apresenta ainda outras inconsistências do achado.

Análise e coleta de amostras a céu aberto numa múmia de Nazca (Reprodução de tela de vídeo de Gaia.com)
Análise e coleta de amostras a céu aberto numa múmia de Nazca (Reprodução de tela de vídeo de Gaia.com)
Imagem de pesquisa arqueológica oficial de múmia Inca: ambiente controlado
Imagem de pesquisa arqueológica oficial de múmia Inca: ambiente controlado (reprodução Portal E-farsas.com)

O que falam os cientistas sobre as Múmias de Nazca

Vigília tentou contato com pesquisadores acadêmicos e arqueologistas brasileiros para comentarem o episódio, mas ninguém quis se manifestar a respeito. Provavelmente temendo a associação de seu trabalho à forma espetaculosa e pouco científica com a qual o tema está sendo abordado. Neste campo, no entanto, no próprio Peru, o tema chegou a gerar um acalorado debate, que ficou restrito à comunidade científica.

Em uma série de três textos, o site Cientificos.pe faz apontamentos importantes sobre o episódio. Primeiro, uma entrevista com o Ph.D. Rodolfo Salas-Gismondi, chefe do Departamento de Paleontologia de Vertebrados do Museu de História Natural da Universidade Nacional Maior de São Marcos (Lima, Peru) e investigador associado da divisão de paleontologia do Museu Americano de História Natural de Nova York, aborda exatamente a forma pouco científica como o achado foi tratado desde o início.

A matéria inclui comentários sobre as diferenças entre a mão de três dedos apresentada inicialmente – com ossos aparentemente enxertados – e anatomicamente incorretos, e as múmias de Maussan. Estas últimas teriam a compleição humana correta, similar a outros achados arqueológicos, mas a conclusão do Ph.D é de que provavelmente teriam sido adulteradas para sustentar a hipótese extraterrestre. Em ambos os casos, a comunidade científica diz apoiar o Ministério da Cultura, cobrando uma ação enérgica do governo do Peru contra a adulteração, mutilação, destruição e expatriação de patrimônio cultural do povo peruano.

Nos dois textos subsequentes, assinados pelo próprio Salas-Gismondi, o pesquisador apresenta novos dados para denunciar que as múmias apresentadas por Gaia e Maussan tratam-se de corpos humanos normais adulterados e, por último, completar a análise de que os achados são montagens que não têm qualquer sentido anatômico.

Sobre a falta de sentido anatômico e outras bizarrices: uma múmia com... ovos! (Foto: reprodução)
Sobre a falta de sentido anatômico e outras bizarrices: uma múmia com… ovos! (Foto: reprodução)

Montagens feitas pelos próprios Nazcas?

No centro da polêmica, Paul Ronceros, que assina suas publicações com o codinome Krawix no Youtube, tem sido um dos divulgadores da hipótese das montagens deliberadas das múmias. Mas, em sua opinião, não se trata de uma farsa, efetivamente. Partes dos corpos teriam sido construídas com ossos de outras partes de corpos de homens e animais, ainda pelos antigos moradores de Nazca. Ele só não sabe dizer exatamente com qual propósito, mas chegou a arriscar em algumas entrevistas que poderia ser para imitar seres alienígenas. Por essa opinião, e por ter tido em sua posse algumas dessas peças, ele não foi poupado das críticas pela comunidade científica peruana.

Ronceros conversou por e-mail com o Portal Vigília. Na entrevista, revelou que “existem vários tipos de montagens, algumas feitas com tórax cheio de partes de seres humanos ou animais, e outros armados a partir do zero, como no caso de Josefina [um dos copos pequenos] e outros, mas todos revestidos com argila de diatomáceas”. “Os crânios com dentes foram modificados, os crânios sem dentes foram reconstruídos com diferentes ossos, então eles não se encaixam”, ressalta.

Em setembro, quando se deu a troca de e-mails com Vigília, Paul Ronceros não tinha ainda conhecimento das análises de DNA. Mas segundo ele, as análises por espectroscopia de infravermelho realizadas no Instituto de Medicina Legal do Callao, feitas na pele de um dos seres de 23 cm, indicaram a presença de proteínas e carboidratos.

Ele fez também um prognóstico: disse que Maussan já sabia que as múmias eram armadas, por isso haveria três análises cujos resultados seriam protelados o maior tempo possível para sustentar a hipótese extraterrestre e dar mais tempo à estratégia comercial de Gaia e Maussan: a análise de DNA, a análise do metal e a análise da pele a Josefina e outras múmias, “porque essa suposta pele foi feita com fibra vegetal”, garantiu. “Se Maussan mostrar essas três análises, ele mostrará que as múmias estão armadas, e isso não lhe convém, porque no momento a segunda parte de seu documentário está chegando ao fim: ‘Em busca dos deuses perdidos’”, analisou.

Vigília tentou contato com representantes de Gaia.com e do Instituto Inkari, responsáveis pela ampla divulgação das múmias, mas não obteve respostas.

Vigília também buscou contato com Jaime Maussan para ouvir sua versão dos fatos. Primeiro o pesquisador recusou a entrevista por e-mail e disse que não poderia responder às perguntas por escrito porque não tinha tempo; só poderia fazê-lo por Skype. Depois de um desencontro de agendas com a redação, Maussan não respondeu mais os e-mails da reportagem.

DNA humano em todas as amostras

Corroborando a previsão de Paul Ronceros, nos vídeos de Gaia ou outras partes do site, as prometidas análises de DNA aparentemente ficaram para o segundo plano. No entanto, nos acalorados debates que se seguiram aos artigos do site Científicos.pe, ainda em julho deste ano, um usuário, assinando como Tobias Hess, postou link para relatório preliminar liberado por Gaia, Tercer Milenio (canal televisivo de Jaime Maussan) e o Instituto Inkari, organização não governamental que participa da divulgação dos achados de Nazca.

A maior parte do documento trata de datações de carbono 14 das amostras. E datações por esse método quando aplicadas em compostos orgânicos são sabidamente pouco precisas. Talvez por isso os resultados tenham mostrado variações de antiguidade tão dispares quanto 500 anos a 6100 anos de idade.

Por outro lado, a parte do relatório apresentada pelo laboratório PaleoDNA, da Universidade de Lakehead, no Canadá, foi bastante direta ao concluir que todas as amostras de tecidos enviadas continham DNA 100% humano, exceto duas onde a proporção de similaridade foi de 99%. A diferença de 1% decorreu, segundo o laboratório, por DNA danificado.

DNA 100% Homo Sapiens
DNA 100% Homo Sapiens (Roprodução)

Os indicadores apresentados no relatório coincidem com a divulgação recente (outubro/2017) realizada pelo Ph.D russo Konstantin Korotkov, em congresso realizado em Roma, na Itália, conforme divulgou o site Ovnihoje.com. Curiosamente, contrariando suas próprias evidências, o pesquisador ainda tangenciou as revelações sobre o DNA, para defender, aparentemente, uma natureza não terrestre para os achados.

Ao que tudo indica, até aqui, não foi dessa vez que produziu-se a prova definitiva de que fomos visitados por alienígenas no passado. Mas o assunto está longe de ser encerrado. Descobrir quem é responsável pelas montagens ainda será um grande desafio. E potencialmente um problema jurídico. Se foram os antigos Incas, moradores de Nazca, o achado é o primeiro de seu tipo e o tratamento que recebeu de empresas e representantes internacionais seguramente será alvo de retaliações do governo peruano. E a resposta não deve ser diferente caso descubra-se que tratavam-se de múmias pré-colombianas legítimas, como outras similares já localizadas na região, mas adulteradas para alguma estratégia de marketing obscura.

O Portal Vigília continua acompanhando o assunto e mantém canal aberto para qualquer representante de Gaia.com, do Instituto Inkariou ou o pesquisador Jaime Maussan apresentarem sua perspectiva das chamadas “Múmias de Nazca”.

1 COMENTÁRIA

  1. NO !!!! none of the experts here has stated this is extraterrestrial life (off world). there is ZERO evidence of this. they all have been saying this is a species of unknown origins. that is all. how ever there dose appear to be technologies used in the mummification process that is unknown to most people. i have asked for a sample of the salts. seeing as how i am this worlds foremost on such creations in its processes. i still await the salts.

Deixe um comentário

Please enter your comment!
Please enter your name here