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Caso José Higgins: precursor do pacifismo antinuclear dos aliens?

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De acordo com o recentemente falecido veterano ufólogo Alberto Francisco do Carmo, o caso da colônia Goio-Bang ou José C. Higgins, de 1947, é um dos mais importantes do início da ufologia moderna. Porém, como o caso ocorreu no Brasil e não nos Estados Unidos – dizia do Carmo – acabou não tendo a importância merecida. Analisamos a fundo e descobrimos vários elementos semiocultos em uma das histórias mais estranhas e apaixonantes do início da era dos “Discos Voadores”.

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Ilustração de um dos Humanoides do Caso José Higgins, por Jader U Pereira (Arquivo pessoal de Pablo Vilarrubia Mauso)
Ilustração de um dos Humanoides do Caso José Higgins, por Jader U Pereira (arquivo pessoal de Pablo Villarrubia Mauso)

No dia 23 de julho de 1947 o engenheiro e topógrafo José C. Higgins foi testemunha de um dos casos mais importantes da ufologia daquele ano. Tudo aconteceu na colônia agrícola de Goio-Bang, no nordeste de Pitanga e a sudoeste de Campo Mourão, hoje município de Luiziana, no estado do Paraná. Ele viu descer um disco voador de 30 metros de diâmetro e 5 metros de altura “atravessado por tubos em diversas direções”. O aparelho parecia ser feito de “um metal branco-cinza”, porém diferente da prata e pousou sobre quatro hastes curvas. Uma porta debaixo do rebordo da nave se abriu e saíram três humanoides que trajavam uma espécie de escafandro transparente…

…que os envolvia completamente, cabeça e tudo, e que estava inchado como uma câmara de ar de automóvel cheia de ar comprimido. E às costas tinham presa uma mochila de metal, que me pareceu ser parte integrante da vestimenta. Através desse macacão, eu via perfeitamente as pessoas vestidas de camiseta, calções e sandálias, não de fazenda, creio, mas de papel brilhante. Notei ainda que sua aparência estranha era devido aos olhos bem redondos e grandes, sem sobrancelhas, tendo, no entanto, cílios e a calva bem pronunciada. Não tinham barba e suas cabeças eram grandes e redondas e as pernas mais compridas que as proporções que conhecemos. E, quanto à altura, tinham 30 centímetros mais do que eu, que tenho um metro e oitenta”, de acordo com a descrição de Higgins em uma carta enviada ao “Diário da Tarde”, de Curitiba, publicada no dia 5 de agosto de 1947 com comentários de um tal Lamartine, pseudônimo de um jornalista.

Ou seja, tais criaturas possuíam pelo menos 2,10 metros de altura. Porém o engenheiro ainda viu outros seres dentro do disco voador, com a mesma aparência – ele considerou todos como “irmãos gêmeos” – porém sem o traje espacial. Um dos entes, do lado de fora, trazia um tubo na mão feito do mesmo metal da nave, com o qual apontava para Higgins. Os seres falavam um idioma bonito e sonoro de acordo com a testemunha. Os três formaram um triângulo em volta do engenheiro e o gigante que portava o tubo fez gestos para que o engenheiro entrasse na nave. Higgins, contudo, não estava disposto a fazer uma viagem sideral e, nesse momento, o gigante – que parecia ser o chefe – fez um ponto redondo no chão de terra cercado de sete círculos. Então apontou para o centro e logo para o Sol pronunciando a palavra “Alamo” e, na sequência, para o sétimo círculo dizendo a palavra “Orque”.

Nesse momento o engenheiro notou que os humanoides evitavam ficar expostos ao sol e se deslocou para a sombra. Ele tirou a carteira do bolso e mostrou a foto da esposa para os desconhecidos dizendo-lhes que ia procurá-la por meio de gestos. Aparentemente isso convenceu os três gigantes e Higgins retirou-se tranquilamente, mas se escondeu detrás de um grupo de arbustos onde ficou a observá-los. Eles se moviam com agilidade a pesar do tamanho e, curiosamente, “brincavam como crianças, dando saltos e atirando longe pedras de tamanho descomunal”. Depois de meia hora os gigantes entraram na nave e partiram em voo em direção ao norte. Na mesma carta o engenheiro comentou que teve muita sorte de escapar e não ser levado a bordo até um lugar desconhecido. Mas também indagou se aquilo teria sido um sonho ou realidade. Vários ajudantes seus viram o disco descer, mas fugiram espavoridos antes da série de acontecimentos aqui relatados.

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O conteúdo da carta também foi publicado na revista “O Cruzeiro” de 13 de novembro de 1954 pelo jornalista João Martins, conhecido pelo caso das fotos do disco voador da Barra da Tijuca de 1952. Três leitores foram os que mandaram o recorte do “Diário da Tarde” e de outro jornal de Bauru daquela época para Martins, porém eu quis me certificar que a notícia existiu. Para isso fui, no dia 30 de abril de 2001, até a Biblioteca Pública do Paraná (Curitiba) e ali solicitei à bibliotecária os rolos de microfilmes para procurar a publicação. Naquela época os jornais ainda não estavam digitalizados e depois de várias horas encontrei a notícia com o título “Extranho aparelho teria sido visto no noroeste de Pitanga”. Satisfeito, pelo menos havia comprovado que a matéria tinha sido realmente publicada.

Matéria do jornal Diário da Tarde de 5 agosto de 1947
Matéria do jornal Diário da Tarde de 5 agosto de 1947

Onda ufológica no Paraná e outros casos

Aproveitando as consultas, olhei vários microfilmes daquele mês de agosto de 1947 e fiquei perplexo: o próprio “Diário da Tarde” anunciava na edição do dia primeiro que “discos voadores” (talvez uma das primeiras vezes que esse nome era usado no Brasil) foram vistos um dia antes sobrevoando Caviúna: “caminhavam através do espaço a uma velocidade enorme e conservavam uma luminosidade opalina que aumentava e decrescia a cada instante”. Naquela mesma época apareceu outro “disco voador” em Cajuru (perto de Curitiba) “uma espécie de avião sem motor, brilhando como o Sol, como se fosse de prata” fazendo evoluções no céu até desaparecer – de acordo com um guarda-civil e sua família. Tais objetos também foram vistos sobre Curitiba (“Diário da Tarde” de 15 de agosto) e em Morretes. Ou seja, o estado do Paraná viveu uma onda ufológica naqueles primeiros tempos da “moderna ufologia”, inaugurada pouco mais de um mês antes, com o avistamento de Kenneth Arnold, no Monte Rainier nos EUA, em 24 de junho. Além disso, o famoso caso Roswell, de um óvni espatifado com seus ocupantes no Novo México, aconteceu no dia 2 de julho daquele ano. Coincidência?

Diário da Tarde de 1 de agosto de 1947: disco voador em Caviuna
Diário da Tarde de 1 de agosto de 1947: disco voador em Caviuna

 

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“Diário da Tarde” de 15 de agosto de 1947: Discos Voador em Curitiba
“Diário da Tarde” de 15 de agosto de 1947: Discos Voador em Curitiba

Sabendo que nunca ninguém havia pesquisado o caso “in loco” decidi, em 2010, ligar para a Prefeitura de Luiziana e combinar, com o secretário de cultura, José de Souza Santos, uma visita à cidade. Junto com meu amigo e grande ufólogo Carlos Alberto Machado (autor de “A Estranha Colheita”, 2018), chegamos ao oeste do Paraná de ônibus e lá fomos recebidos no paço municipal pelo secretário e Olga Costin, quem nos contou que sua mãe – Leonor Walter Costin, falecida em 2005 com 88 anos – contava sempre aos filhos a história do engenheiro José C. Higgins, embora não o tenha conhecido.

Olga Costin e Pablo na area do avistamento do Caso José Higgins, em 1947 (Foto: Carlos Machado/arquivo de Pablo Villarrubia Mauso)
Olga Costin e Pablo na area do avistamento do Caso José Higgins, em 1947 (Foto: Carlos Machado/arquivo de Pablo Villarrubia Mauso)

Olga revelou, para nossa surpresa, que ela mesma havia visto um óvni em 1995, sobrevoando Luiziana, com forma de meia lua – do tamanho aparente do nosso satélite natural – e voando em linha reta e logo descendo no horizonte, onde desapareceu. A irmã dela, Laura Costin, nos contou que no seu sítio, a vários quilômetros da cidade, há mais de 60 anos, via a “mãe-do-ouro” que aparecia no céu, descendo em linha reta, até sumir em uma mata próxima à casa. Poucos quilômetros mais adiante visitamos a colônia Goio-Bang, suposta área do pouso do disco voador com os seres de mais de dois metros de altura. Tudo o que vimos foi um vasto campo de cultivo e terra bem vermelha, sem nenhuma casa ao redor, ou seja, uma zona praticamente erma.

Leonor Costin no lugar da aparição mãe-do-ouro (Foto: Pablo Villarrubia Mauso)
Leonor Costin no lugar da aparição da nmãe-do-ouro (Foto: Pablo Villarrubia Mauso)

Um taxista com o qual conversamos, José Alziro, relatou que o irmão dele, já falecido, havia trabalhado com um topógrafo em 1947 e que havia ouvido falar da história de um disco voador na colônia Goio-Bang. Não obstante, outro pioneiro da região, Polon Radecki (chegou em 1944), então com 89 anos, me contou que ele nunca havia ouvido falar do topógrafo Higgins e que a única história curiosa daquela época é que um helicóptero militar pousou em Mamborê. A bordo estava o governador do estado do Paraná e muita gente, que nunca havia visto um helicóptero, se assustou.

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Porém outros como Conrado Teixeira, de 86 anos, nos disse que havia trabalhado, naquela época, com um topógrafo chamado Casimiro. Ele lhe disse que na fazenda São José, perto de Luiziana, os seus instrumentos topográficos deixavam de funcionar ou apresentavam problemas na hora de trabalhar. Bastava mudá-los de lugar para que voltassem à sua normalidade. Em outra fazenda, também próxima à cidade, aparecia um “fogo” ou luz de cor amarela que agitava as folhas das árvores sem queimá-las. As pessoas diziam que naquele lugar existiam “potes” encantados dos índios. Vale lembrar que a região é atravessada pelo Peabirú, o mítico caminho feito pelos incas que percorria os Andes, descia pelo Paraguai e desembocava na costa sul do Brasil.

Outro entrevistado foi, em 2010, Antônio Alves da Rocha, também pioneiro da região de Campina do Amoral. Ele lembrava, vagamente, do caso José C. Higgins mas nos revelou outra história inédita nos anais da ufologia: a três quilômetros de Luiziana, no rancho do pai dele, no ano de 1934, Rocha viu cair do céu uma bola enorme de fogo que deixava uma cauda de fumaça. O objeto desapareceu no horizonte e logo o jovem sentiu uma explosão enorme e o chão tremeu. Inclusive algumas garrafas que estavam nas prateleiras da cozinha caíram e se quebraram. O que teria sido aquilo? Um UFO crash? Um meteorito gigantesco? Não sabemos…

Antonio Alves da Rocha colono de Luiziana (Foto: Pablo Villarrubia Mauso)
Antonio Alves da Rocha colono de Luiziana (Foto: Pablo Villarrubia Mauso)

O ufólogo gaúcho Márcio Parussini – do Movimento de Ufologia Gaúcho, Rede de Ufólogos Gaúchos e Grupo de Estudo de Ufologia Científica ou GEUC – apresentou, em abril de 2020, na lista fechada de e-mails “Anomalist” da Espanha, que descobrira, em vários jornais digitalizados, entre eles “A República” e “Correio do Paraná”, que José Carlos Higgins realmente existiu e que era filho do pastor da igreja presbiteriana Independente do Brasil, José Maurício Higgins, e de Maria Rosa Cornelsen, nascido no dia 12 de novembro de 1947.

Em fevereiro de 2021 o arquivista brasileiro Rodrigo Moura Visoni localizou e me enviou a certidão de nascimento de Higgins – nascido em Curitiba – excluindo qualquer dúvida sobre sua existência. Inclusive, anos atrás, o ufólogo Edison Boaventura Jr. comentou-me que o prematuramente falecido ufólogo Osni Schwartz (que conheci nos anos 80) havia mantido comunicação epistolar com o engenheiro do caso de Goio-Bang. Tais cartas, porém, desapareceram junto com o arquivo pessoal ufológico de Schwartz.

Sobre a identidade de “Lamartine”, que fez a introdução e a conclusão no artigo onde aparecia publicada a carta de Higgins no “Diário da Tarde” do dia 5 de agosto (e que voltou a ser republicada no dia 8), o pesquisador espanhol Juan Carlos Victorio (do blog “Misterios del Aire”) anunciou, na lista “Anomalis” no dia 9 de março de 2021 – fazendo um rastreio no “Diário da Tarde” digitalizado – que se tratava do pseudônimo jornalístico de Iosmar Luz Silva, diretor-secretário do mencionado jornal, que assim assinava entre 1946 e 1950. Mas por que o mesmo se esconderia sob esse nome literário e não assinou a matéria com seu próprio nome? Este é outro mistério para esclarecer.

A história e a testemunha não foram simplesmente "inventadas": certidão de José Carlos Higgins (acervo pessoal de Pablo Villarrubia Mauso)
A história e a testemunha não foram simplesmente “inventadas”: certidão de José Carlos Higgins (cortesia Rodrigo Visoni)

Os gigantes de Goio-Bang, porta-vozes antinucleares?

Há vários anos percebi que a palavra “Alamo”, empregada por um dos humanoides, poderia ter relação com um dos acontecimentos históricos mais terríveis do século XX: a explosão da primeira bomba atômica, a “Trinity”, no dia 16 de julho de 1945, também chamado “test range Alamogordo”, a 97 km da vila de Alamogordo, dentro do perímetro desértico do White Sands Missile Range (campo de mísseis de Areias Brancas) no estado de Novo México. A “Trinity” foi fabricada no Laboratório Nacional de Los Alamos, criado em 1942 no mesmo estado, quando surgiu o projeto, então secreto, chamado “Manhattan”, sob a liderança do célebre físico Robert Oppenheimer. Além dessa bomba atômica, de lá saíram outras como as de Hiroshima e Nagasaki, detonadas respectivamente nos dias 6 e 9 de agosto de 1945, matando milhares de pessoas no Japão.

Curiosamente a matéria do “Diário da Tarde” do dia 5 de agosto de 1947, com a introdução de Lamartine/Iosmar Luz Silva, terminava dizendo que “neste século XX da bomba atômica que destrói uma cidade e aterroriza uma civilização, quem poderá duvidar que até o impossível aconteça?”. Tal comentário contém algo profético e ao mesmo tempo inquietante: o medo nuclear que surgiu dois anos antes e que o poder de destruição dos artefatos atômicos humanos era equiparável à vinda de seres de outros mundos, de distâncias talvez interplanetárias, como algo extraordinário.

Lamartine... ou o secretário de redação do jornal, Iosmar Luz Silva
Lamartine… ou o secretário de redação do jornal, Iosmar Luz Silva

Poderia existir uma mensagem implícita na palavra “Alamo” dita por um dos gigantes siderais, não apenas na identificação do nosso Sol, mas de um alerta para um perigo atômico. Por isso, talvez, a menção tenha a ver com o laboratório de Los Alamos. Este tipo de mensagem pacifista somente teria repercussão mundial quando, no dia 20 de novembro de 1952, o famoso contatado George Adamski teve um encontro, no deserto de Colorado (Califórnia), com um extraterrestre alto e loiro chamado Orthon que advertiu ao entusiasta dos discos voadores sobre o perigo nuclear que poderia açoitar a Terra com uma possível deflagração mundial. Isso aconteceu 20 dias depois da primeira explosão (no oceano Pacífico) de uma bomba termonuclear ou de hidrogênio por parte dos Estados Unidos, 7000 vezes mais poderosa que as bombas atômicas lançadas no Japão.

Em minha opinião, o caso de José C. Higgins antecipa, em 5 anos, essa mensagem de advertência contra o perigo da destruição nuclear do planeta, mas de forma velada, ainda embrionária, com a palavra-chave “Alamo”. Se isso for certo, estaríamos diante de um dos primeiros casos de antibelicismo nuclear proclamado e difundido por supostas entidades extraterrestres. Ou seja, o caso de Goio-Bang seria um dos mais importantes da história da ufologia como precursor de outros que viriam anos depois; o caso Higgins poderia ser o gestor de novos modelos ufológicos que vingariam e se expandiriam fora do país.

Aparições marianas e óvnis em 1947

Nesse mesmo âmbito de “messianismo” e “pacifismo cósmico”, eu enquadraria outras aparições nesse mesmo ano de 1947 tanto em Campo Mourão-Pitanga como em outros lugares do nosso planeta: uma verdadeira onda de aparições marianas. Durante nossa investigação nas proximidades da colônia Goio-Bang descobrimos graças à mencionada Olga Costin a “fonte de Santana”, um lugar ermo que tinha fama devido a suas águas milagrosas. Estas foram descobertas no século XIX e, durante a guerra do Paraguai, foram usadas para curar as feridas dos soldados. Porém, naquele ano de 1947, três meninos viram uma espécie de “boneca gigante” caminhando ou flutuando no ar sobre a poça criada pelas águas da fonte. Vários atribuíram aquilo à aparição da Virgem Maria. Também um casal testemunhou como as águas dessa poça se transformaram em sangue ou um líquido de cor vermelha bem intensa. E ainda mais: outros contemplaram uma espécie de “coroa brilhante” descer do céu até a fonte. Seria um “disco voador”?

Carlos Alberto Machado, Olga Costin e Jose Souza Santos na Fonte de Santana (Foto: Pablo Villarrubia Mauso)
Carlos Alberto Machado, Olga Costin e Jose Souza Santos na Fonte de Santana (Foto: Pablo Villarrubia Mauso)

No livro “Humanoid Encounters (the others amongst us) 1930-1949”, do ufólogo Albert S. Rosales, encontrei uma série de referências muito interessantes: em 1947 sucederam, paralelamente às aparições de óvnis e de humanoides, uma série de aparições marianas em todo o mundo. No dia 12 de abril, por exemplo, em Tre-Fontane na Itália, com três crianças como videntes da Virgem; no dia 27 de junho em Tyromestica, na então Checoslováquia, com três pastores que observam a Virgem sobre uma “nuvem luminosa” enquanto outros observaram a “dança do Sol” ou um disco de aspecto solar que fazia evoluções no céu; ainda no mesmo dia, em Vorsten-Bosch, na Holanda, duas crianças disseram ter visto uma mulher que identificaram como a Virgem Maria. Lembremos, também, o estudo minucioso realizado por dois grandes pesquisadores lusitanos, a historiadora Fina D’Armada e o jornalista Joaquim Fernandes sobre as aparições da Virgem de Fátima, em Portugal, em 1917, com características próximas ao fenômeno óvni. Estas aparições fariam parte de um mesmo fenômeno – que incluiria os “não identificados” – muito mais amplo e mais enigmático do que poderíamos supor?

Gigantes e vampiros ETs de uma nova consciência global?

Como já dissemos, a carta de Higgins apresenta elementos premonitórios da constituição moderna do fenômeno óvni, entre eles elementos de modernidade de difícil invenção, salvo se o autor fosse um bom leitor de ficção científica, algo não corriqueiro, naquela época, no Brasil. O gênero começa a despontar especialmente com o escritor e jornalista Jeronymo Monteiro, naquele mesmo ano, com o romance “3 meses no século 81”. Curiosamente, este incidente ufológico inspiraria o “pai da ficção científica” brasileira para criar, em 1963, seu romance “Os visitantes do e espaço”.

Capa do livro do Jeronymo Monteiro (reprodução)
Capa do livro do Jeronymo Monteiro (reprodução)

Vamos considerar que o conteúdo da carta seja verdadeiro: nas suas poucas linhas, pude detectar outros elementos que me induzem a pensar que esse caso é, na verdade, o que eu chamo de um “caso de transição”. Aqui entramos em um terreno mais complicado, porém não menos apaixonante: o da paraufologia, uma série de teorias que elevam o fenômeno óvni à categoria da interação da mente humana com algum elemento externo ou exterior desconhecido. É o caso da teoria do “sistema de controle” de Jacques Vallée e, mais recentemente, em uma evolução da anterior, a “teoria da distorção” do ufólogo espanhol José Antônio Caravaca.

Alguns destes princípios aparecem no livro “Passaporte para Magonia”, de Jacques Vallée, onde entidades do passado, como duendes, bruxas, vampiros, gigantes e outras criaturas sobrenaturais formariam parte de um complexo “teatro do inconsciente” que teriam evoluído para formas mais modernas no século XX, neste caso, sob o aspecto de visitantes do espaço e suas maravilhosas máquinas voadoras siderais.

Mas, como o caso Higgins entra nesta categoria de transição na paraufologia? No comportamento dos gigantes. Eles “brincavam como crianças, dando saltos e atirando longe pedras de tamanho descomunal”. O que pode parecer um dado absurdo e bizarro tem uma lógica intrínseca que corresponde à transição entre elementos culturais que portamos do passado, como lendas e tradições de gigantes e uma tentativa de “modernização”, talvez estimulada por essas estranhas entidades ou algo totalmente desconhecido que nós associamos a seres extraterrestres. Há outro fator que veremos em muitos outros casos de aparições de humanoides: o da semelhança entre eles. Higgins diz que parecem gêmeos, ou seja, de aspecto muito parecido uns aos outros, como se fossem clones, algo que se repetiria nos casos posteriores a 1947 ao longo da história da ufologia.

Essa transição entre gigantes que fazem demonstrações pueris de força e seres de outros planetas de tecnologia avançada – para gerar um novo paradigma – é o resultado de “distorções mentais” que, às vezes, se apresentam como comportamentos absurdos, tal como diz Caravaca. Nessa mesma categoria entraria outra atitude esquiva dos três gigantes: de que eles procuravam se afastar da luz solar e permanecer na sombra, como constatou o próprio Higgins. Isso recorda as velhas lendas medievais de vampiros da Europa Central. Resta saber se essas “distorções” são fruto da nossa mente ou se são fruto da interação da nossa mente com uma ou mais forças externas ou exógenas de origem desconhecida e que nós chamamos de “extraterrestres” ou “aliens”. Ou ainda mais: talvez um encontro como o de Goio-Bang seja uma tentativa dessas mesmas forças desconhecidas se adaptarem aos nossos conteúdos mentais – com as consequentes “distorções” ou erros de adaptação – para a consecução de um misterioso objetivo que desconhecemos.

Na mitologia vasca do norte da Espanha, existem figuras denominadas “Jentilak”, que são humanoides gigantes, com uma força descomunal, capazes de lançar grandes pedras a longa distância ou também usá-las para brincar. Tais seres viviam longe dos homens, mas também poderiam ser entidades “civilizadoras” que, em alguns casos, eram capazes de ensinar às pessoas como cultivar a terra, como realizar a colheita, a arte da forja do ferro, entre outros. Ou seja, os gigantes extraterrestres de Higgins, com modernos trajes espaciais transparentes – inclusive muitíssimo avançados e inusuais para 1947 – ainda conservariam o comportamento dos estereótipos medievais ou neolíticos dos gigantes como os “Jentilak”. Mas no caso de Goio-Bang eles não vieram para nos ensinar o cultivo da terra – algo que já sabemos – senão para alertar-nos de que a energia nuclear, especialmente as bombas atômicas, representa um perigo que poderia se tornar incontrolável, como quase aconteceu em 1962 durante o conflito dos mísseis em Cuba, o que quase acabou com uma apocalíptica guerra nuclear entre a URSS e os Estados Unidos.

Seriam os seres da nave espacial vista por Higgins os mensageiros e precursores de uma nova e terrível era marcada pelo medo e o terror provocado pelo desenvolvimento das primeiras bombas atômicas, tudo isso resumido em uma só palavra-chave, “Alamo”? Se aplicarmos a teoria desenvolvida pelo ufólogo espanhol Miguel Pedrero, na sua nova obra “Ovnis: mensajeros de la consciência global”, tudo isto dito anteriormente encaixa perfeitamente. Porém, a grande dúvida é: esses mensageiros seriam realmente extraterrestres ou um reflexo, materializado, de nossas mentes, em comunhão universal; ou ainda reflexo de um “inconsciente coletivo” (como diria Carl Jung) que, a partir de mecanismos desconhecidos, começaria a gerar um novo paradigma de comportamento humano diante de novos desafios que ainda não pudemos superar?

Pablo Villarrubia Mauso é doutor em jornalismo pela Universidade Complutense de Madri e ufólogo, mantenedor do canal Pablo Villarrubia Mauso no Youtube. Seu email para contato é [email protected]

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Doutor em jornalismo pela Universidade Complutense de Madrid e ufólogo

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