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Caso Ilha de Trindade: de prova incontestável a fraude disputada

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Este artigo ganha as páginas do Portal/Revista Vigília com vários meses de atraso. Isso a começar essa conta apenas a partir de quando o famoso caso das fotos de Almiro Baraúna, tomadas a bordo do navio Almirante Saldanha, voltou às luzes depois de uma ampla matéria veiculada pelo programa Fantástico, da TV Globo, que foi ao ar em 15/08/2010. A verdade é que começou bem antes a pesquisa que culminou com um questionamento bastante sólido (para dizer o mínimo) sobre a veracidade desse caso clássico da Ufologia brasileira.

O resultado, a maioria já conhece: de verdade inconteste, o caso transformou-se numa fraude histórica. E após o choque inicial da chamada Comunidade Ufológica, com os habituais protestos e negativas precipados dos mais crédulos, instaurou-se agora uma disputa sobre as versões da fraude: como Baraúna teria, de fato, forjado o disco voador?

Em busca de pôr lenha na fogueira em que se transformou essa história, o Portal/Revista Vigília teve acesso a uma testemunha ocular — provavelmente a última ainda viva — do evento que levou à construção do mais famoso registro ufológico brasileiro. Nem sobrinho, nem amigo, nem testemunho indireto: um verdadeiro tripulante do navio Almirante Saldanha, que ESTAVA NO CONVÉS no momento da suposta aparição do OVNI/UFO. Seu nome é Edson Jansen Ferreira, hoje capitão-tenente reformado da Marinha, aos 76 anos de idade.

A contextualização necessária

Antes de tudo, é necessário contextualizar o depoimento de Jansen. O Fantástico teve acesso a informações em primeira mão, até então não publicadas ou, no máximo, publicadas na Internet de forma dispersa, desorganizada, de maneira que dificilmente dariam ao leitor/pesquisador menos atento um cenário completo, apontando a totalidade de suas implicações.
Estas mesmas informações fazem deste autor mais espectador que protagonista desta pesquisa. Todo o trabalho árduo de levantamento e compilação dos dados já estava em andamento graças ao empenho de Kentaro Mori, editor do Portal Ceticismo Aberto, e um nome ainda pouco conhecido da Ufologia, mas de valor inestimável da elucidação do caso Trindade: Rodrigo Moura Visoni.
Depois que a matéria do Fantástico foi ao ar, parecia, realmente, que todo o contexto ainda não publicado talvez tivesse sua importância reduzida diante da bombástica revelação exclusiva obtida pela produção do programa. Como há muito não se via na Ufologia, o Fantástico trazia à luz um sensacional furo de reportagem: a confissão de uma pessoa próxima de Baraúna, amiga da família, de que o próprio já assumira perante os familiares que tratava-se de um grande engodo. Uma montagem que sobreviveu a anos de “investigações” crédulas, entrevistas mal conduzidas, análises nada específicas e pouco confiáveis, quer pela carência de recursos, por assumir pressupostos errôneos ou meramente pela falta de habilidade.

Trecho do Relatório do adido M. SunderlandNão pretendo reproduzir aqui todos os artigos que já tinham levantado dúvidas sobre as fotos de Baraúna. Mas cabe mencionar alguns mais importantes para o contexto. Num relatório de 11 de março de 1958, anexado ao Projeto Blue Book, o capitão M. Sunderland, adido da Marinha dos EUA no Brasil, notava a inversão do objeto em uma das fotos (a foto 2). Mais tarde, num artigo publicado no verão de 1999, na revista “Unopened Files” (ou aqui, em português), Martin J Powell destaca detalhadamente a semelhança entre as fotos 1 e 2 da sequência obtida pelo fotógrafo, onde o objeto parece exatamente o mesmo, nas mesmas proporções, mas invertido.

Mais recentemente, o pesquisador francês Eric Maillot levantou outro aspecto até então não explorado ou não pesquisado por nenhum dos especialistas ou ufólogos que se envolveram com o caso. Se as fotografias haviam sido obtidas num intervalo de tempo tão curto – o avistamento todo, produzindo 6 fotogramas, durara apenas 14 segundos, conforme o autor das imagens, porque então o céu atrás do objeto mostraria — numa mesma região — formações de nuvens tão diferentes e incompatíveis? Poderia o céu mudar tão radicalmente em tão exíguo espaço de tempo?
Animação comparativa das núvens no momento das fotos

Animação comparando nuvens na mesma região do Céu (Cortesia Kentaro Mori)

Mas até aí as dúvidas, embora baseadas em indícios bem concretos, tinham flanco aberto a todos os tipos de críticas. As análises, como as dos próprios ufólogos, ressalte-se, foram feitas sobre cópias de segunda ou terceira geração das fotos originais. Nada sobre os negativos.
Mas havia mais um problema. O fotógrafo Almiro Baraúna, à altura do suposto avistamento, já era conhecido no meio jornalístico pela autoria de outras fraudes, inclusive uma envolvendo um disco voador (Revista Mundo Ilustrado, 10/11/1954). Mesmo assim, a comunidade ufológica não deu bola para a informação. Numa entrevista gravada em vídeo realizada pelo pesquisador Marco Antônio Petit em 1997, a história de como Baraúna havia forjado uma foto de um tesouro e vendido como verdadeira a um jornal local, fora mencionada de passagem, pelo próprio Baraúna, e foi ignorada pelo entrevistador como se não tivesse qualquer relevância.

Por outro lado, ao longo dos anos, foram ganhando cada vez mais importância aspectos obscuros e via de regra respaldados em boatos ou informações imprecisas fornecidas pelo próprio Baraúna ou por seus dois amigos, os outros únicos entrevistados que, além dele, também relataram ter visto o objeto a bordo do Almirante Saldanha: o presidente do Clube de Caça Submarina de Niterói, Amilar Vieira Filho, e o capitão da reserva da FAB (Força Aérea Brasileira), também membro do Clube (assim como Baraúna), José Teobaldo Viegas.

Figurinhas repetidas e histórias conflitantes

Chega a ser impressionante o fato de que, embora a primeira informação a circular desse conta — erroneamente, como veremos mais adiante — de que “dezenas de marinheiros” estivessem no convés e talvez tivessem presenciado o suposto objeto, nenhuma testemunha, além dos três já citados, declarasse ter visto o OVNI. Mais suspeito ainda é o fato de que, com potenciais 70 entrevistados (cerca de metade da tripulação), somente outros três tripulantes tivessem dado qualquer tipo de declaração: o Capitão-de-Corveta Carlos Alberto Bacellar, que já havia comandado a operação na Ilha de Trindade, o comandante do navio, José Santos de Saldanha da Gama, e outro tripulante, o capitão-de-fragata Paulo de Castro Moreira da Silva. Todos os três oficiais negaram ter visto o objeto, por não terem chegado a tempo. Ao último, que confirmara não ter observado o objeto, também é creditada a informação de que uma suposta quarta testemunha ocular faria parte do grupo: o tenente Homero Ribeiro, que não chegou a ser entrevistado. Ninguém, além deles, jamais foi procurado por jornalistas, ufólogos ou quem quer que fosse, nem mesmo por supostos investigadores da Marinha, como viríamos a saber mais tarde.
Ao longo de todos esses anos, o caso tem se sustentado apenas com o relato do suposto testemunho ocular dos três amigos integrantes do Clube de Caça Submarina de Icaraí, incluindo o fotógrafo. E até entre os próprios, os relatos são conflitantes. Nas entrevistas publicadas, o suposto UFO é descrito como “objeto cinzento”, com “luz fluorecente”, “pires voador” e houve até quem creditasse a Viegas a informação de que teria visto janelas ou portinholas. Também o número de testemunhas variava segundo a fonte. Ao mesmo Moreira da Silva, que dissera à época ao jornal O Globo que deveria haver ao todo umas “8 testemunhas”, mais tarde seria creditada a declaração de que “o… fenômeno que, além de documentado por fotos, foi confirmado pelo depoimento escrito de 48 testemunhas”.
Outro ponto controverso fala sobre a suposta investigação oficial e o envio das imagens para análises por laboratórios especializados. Baraúna disse ter conversado com oficiais do Serviço Secreto da Marinha. Mas foram apenas duas vezes, assim mesmo fora até la levado por Bacellar. Nenhum dos demais jamais confirmou ter sido procurado por qualquer oficial das forças armadas ou solicitado – exceto pelo próprio Baraúna e por Bacellar, a manter silêncio sobre o episódio.
Quanto à informação de que os negativos haviam sido encaminhados à análise do Serviço Aerofotogramétrico da Cruzeiro do Sul, o próprio diretor-superintendente da Cruzeiro do Sul, Sr. Hélio Meireles, desmentiria ao jornal O Globo: “Por favor, desminta isso pelo O Globo, pois não conheço pessoalmente o fotógrafo Almiro Baraúna nem o Serviço Aerofotogramétrico Cruzeiro do Sul fez qualquer trabalho para ele. Estamos totalmente alheios a esse assunto de disco voador”, disse.
A declaração de Meireles conflita radicalmente com o que escreveu, à época, o Capitão de Corveta José Geraldo Brandão, na única peça oficial já produzida sobre o caso: “O técnico do Departamento de Hidrografia e Navegação da Armada, depois de analisar os negativos, afirmou que são naturais. Os técnicos do Serviço Aerofotogramétrico da Cruzeiro do Sul, após a realização de exames microscópicos para verificar a granulação, análise de sinais, verificação de luminosidade e detalhes de contornos, afirmaram: não havia sinal algum de fotomontagem nos negativos mencionados e toda evidência demonstrava que eram realmente negativos de um objeto verdadeiramente fotografado. A hipótese de uma fotomontagem tramada após o avistamento está excluída. É impossível demonstrar tanto a existência como a inexistência de uma prévia fotomontagem; de qualquer forma, para isto se requerem uma técnica de alta precisão e circunstâncias favoráveis para a sua execução”. Esse trecho é reproduzido aos quatro cantos nos artigos ufológicos, sem que nunca qualquer pesquisador tivesse sequer passado os olhos sobre o tal relatório do Cruzeiro do Sul. A discrepância é creditada à desinformação de Meireles. Mas é ainda mais suspeito notar que em todos os escritos de época sobre o episódio, a sugestão de averiguar a “granulação, luminosidade e contornos”, nesta ordem(!), nos positivos e negativos das imagens, é do próprio Baraúna, sugestão esta apresentada já nas primeiras entrevistas aos jornais, antes que qualquer menção ao envolvimento de algum laboratório.
Além disso, outro ponto obscuro assimilado como fato sem nunca ter havido qualquer documento comprobatório foi a suposta análise do laboratório da Kodak, outra informação fornecida por Baraúna. Mesmo assim, dezenas de livros, artigos, matérias jornalísticas e vídeos foram produzidos repassando como fato confirmado a afirmação sem fundamento.

O império contra-ataca

Colocado neste contexto, o caso da Ilha de Trindade já acumula mais dúvidas que certezas. E a matéria do programa Fantástico, ao que tudo indicava, fechava o círculo. Nela, a publicitária Emilia Bittencourt, amiga da família Baraúna, contou que ouviu da boca do próprio fotógrafo: “ele pegou duas colheres de cozinha, juntou e improvisou uma nave espacial e usou de pano de fundo a geladeira da casa dele. Ele fotografou na porta da geladeira o objeto com a iluminação perfeita. Ele ria muito sobre o assunto”.
Eis que então veio a resposta. Alguns meses depois – e gerando a polêmica que ora se instalou acerca das versões da fraude – a comunidade ufológica se redimiu do furo histórico em relação às análises laboratoriais inexistentes, as informações desencontradas, as pesquisas superficiais, e, através do muito bem escrito texto do pesquisador Alexandre de Carvalho Borges, publicado também na Revista UFO, trouxe à baila o que chamou ser “última testemunha viva” do episódio. Tratava-se, na verdade, do sobrinho de Baraúna, Marcelo Ribeiro. Alguém que, na palavras do próprio autor do artigo, já era seu conhecido, “mas por alguma razão do destino não o contatou”.
O sobrinho contou, então, como foi a “grande brincadeira” de seu tio, usando fichas da antiga frota carioca, reproduzindo o truque que revelara anos antes, na revista Mundo Ilustrado. E para Emília Bittencourt, teria falado das colheres apenas porque “…Ficava todo mundo enchendo a paciência dele, querendo saber como era: ‘Como é que você fez?’. E ele dizia: ‘Pô, isso aí é uma mentira, eu não fiz de verdade’, etc. As pessoas ficavam naquela curiosidade. Ao mesmo tempo, parecia que estava brincando quando dizia que era mentira, dá pra entender? Ele era um grande brincalhão. O Baraúna era uma figura. Se você pegar duas colheres, não dá pra fazer. Eu sou fotógrafo e eu sei que não dá”, disse Marcelo Ribeiro.

A verdadeira testemunha ocular

Mas o que sobressai-se neste novo desdobramento, além da disputa sobre qual versão do “modus operandi” da fraude prevalece — se duas colheres, ou uma ficha pendurada por um fio — é o fato de que, na explicação do sobrinho do fotógrafo, ainda haveria um avistamento real, servindo de gancho para a montagem que transformaria Baraúna num grande brincalhão e os seus amigos do Clube de Caça Submarina em vitimas do engodo.
“Na realidade, as pessoas viram alguma coisa lá. Tinha alguma coisa, uma formação de nuvem, outra coisa. Ele [Baraúna] estava fazendo fotos submarinas pra Marinha e quando estava saindo de dentro d’água, ele não tinha mais filme na máquina. (…) Ele não tinha filme, mas ele fez como se tivesse feito umas dez fotos ali, rodando e apertando”, revelou o sobrinho do fotógrafo ao pesquisador Alexandre Borges.
Ficou por ser esclarecido, então, o suposto avistamento. E, para tanto, faltava a declaração de um tripulante — qualquer outro — que não fosse um dos membros do Clube de Caça Submarina. A investigação Ufológica, ao longo da história, nunca foi capaz de trazer à tona um único testemunho diferente entre daqueles seis nomes que permearam o noticiário de época. E foi aí que então entrou o minucioso trabalho do pesquisador Rodrigo Moura Visoni, que teve acesso ao livro de quartos do navio Almirante Saldanha, o diário de bordo da embarcação na época.
“O livro de quartos que pesquisei possui a classificação de ‘confidencial’, a qual, pelo decreto 5301, de 9 de dezembro de 2004, é extinta após 10 anos da produção do documento). Ou seja, o livro de quartos com as informações do navio-escola Almirante Saldanha já é de livre acesso ao público desde 1968”, conta Visoni.
Com o livro em mãos, Kentaro Mori fez o cruzamento dos nomes a bordo, buscando na rede os dados de cada tripulante, até que localizaram Edson Jansen Ferreira e fizeram o primeiro contato com o capitão-tenente. Ele se mostrou surpreso com a importância que o caso ganhou ao longo do tempo. “Eu não sei o que foi que fez com que todo mundo [dissesse ver] – todo mundo vírgula, porque eu faço parte do mundo. E então eu não vi. Falo com toda a franqueza(…): não sei se eles não foram todos induzidos a ver alguma coisa”, disse ele aos pesquisadores.
Depois de contar sua história, de sua casa, por telefone, Edson concordou em conceder entrevista ao Portal/Revista Vigília. Na conversa, ele esclareceu que estava no convés no momento em que começou o alerta sobre o suposto objeto. “Tinha alguém dizendo: ‘tá’ vendo? Eu ‘tou’ vendo. E eu digo: agora quero saber aonde? (…) E ninguém me mostrava”. “O que me causa espécie é que todo mundo via e eu sozinho era cego?”, pergunta com ironia.
Edson Jansen acrescentou detalhes curiosos, como o fato de que o episódio quase não foi mencionado em conversas no resto da viagem e de que nunca, em momento algum, fora procurado pela Marinha para dar qualquer esclarecimento. Confira, a seguir, o áudio da entrevista (editado, com cortes simples para retirar trechos de pouca ou nenhuma relevância):

Entrevista Jansen

Pelas declarações desta inédita testemunha ocular, ficamos mais próximos de elucidar essa fraude histórica que durante anos foi considerada um dos melhores registros fotográficos da Ufologia, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo.
Oportunidade aproveitada pelo fotógrafo Almiro Baraúna? Sozinho ou com a cumplicidade dos amigos? Talvez nunca saibamos exatamente. O que fica claro, porém, é quão frágeis podem ser alguns episódios considerados incontestáveis na Ufologia, baseados em pesquisas inconsistentes, métodos duvidosos e pouco científicos.

 

Agradecimentos a Kentaro Mori e Rodrigo Moura Visoni pela colaboração.

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