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Nem todo UFO é extraterrestre… Ou como identificar fraudes e sensacionalismo em tempos de Internet

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Essa semana deparei-me com uma notícia para lá de bombástica num grande portal de notícias (muitas delas sensacionalistas) da Internet. Ela dava conta de que uma testemunha na China teria filmado um OSNI/OVNI, ou objeto submarino não identificado — ou seja, UFO que emerge (ou submerge) das águas. Esse tipo de relato não é de fato incomum na história da Ufologia. Mas os registros em foto ou vídeo são mesmo raríssimos.

Inicialmente ignorei o fato de já saber que o site é afeto a notícias sensacionalistas. Afinal, deveria tratar-se de um registro em vídeo! Fui lá gastando um clique para conferir, pois que deveria ser algo bombástico! #SQN…

Também não foi lá grande surpresa ver que se tratava de uma filmagem a enorme distância, de um objeto que parece uma embarcação convencional, se desloca como uma embarcação convencional e, diferente da mirabolante história que o acompanha, tem as mesmas características de um navio com guindaste na popa (parte de trás da embarcação). Ou até mesmo uma targa mais avantajada. Nada de submersão ou decolagem a partir da água.

Pensei em escrever um artigo sobre o assunto. Mas me ocorreu que esse tipo de situação é tão comum na Ufologia que melhor serviço prestaria se reunisse num texto, de forma resumida, um conjunto de informações que ajudasse os leitores a não caírem nessas armadilhas da Internet.

Um guindate naval...
Um guindaste naval…
Lancha com uma targa (a haste na popa) grande

A intenção aqui não é ensinar nada a ninguém ou desmistificar tudo o que dizem que são OVNIs, discos voadores ou extraterrestres. Não é de hoje que a atitude realista do Portal Vigília inspira amores e ódios na Ufologia. Mas pudera: desde 1997 buscamos tratar o tema com seriedade e uma abordagem científica, tentando separar o joio do trigo. Ocorre que consideramos o assunto com seriedade o suficiente e a tempo o bastante para afirmar, com base em estatísticas mundialmente aceitas, que disco voador “não é carne de vaca”, como reza o dito popular. Apenas algo entre 2% e 5% de todos os casos investigados, dependendo do compromisso do pesquisador com a verdade e o método científico, permanecem realmente no campo do insólito e do inexplicável. E ainda assim, na maioria das vezes a suposta procedência extraterrestre é apenas isso mesmo: uma suposição. Historicamente contextualizada, claro. Mas ainda apenas uma hipótese de trabalho.

Mas como diferenciar o insólito verdadeiro da enxurrada de notícias fabricadas a partir de fraudes, erros de interpretação, bizarrices e sites “papa cliques” ou pegadinhas da Internet? Não é, de certo, uma tarefa simples. Tão pouco há uma receita mágica. Mas algumas atitudes simples podem ajudar bastante a se manter em vigília constante contra as falsas notícias.

UFOS no Haiti, México ou República Dominicana: qualquer se seja a história, a famosa filmagem falsa, explicada pelo autor.

Ceticismo contra afirmações vagas e sem fontes

Uma primeira dica é manter um bom grau de ceticismo inicial. Ou troque a palavra por bom senso, como queira. É preciso considerar antes de tudo que aquela foto aparentemente sensacional, ou aquele vídeo, são provavelmente muito mais fáceis de serem fabricados nas mãos de um “sobrinho” habilidoso com computadores, do que uma verdadeira viagem intergaláctica que envolveria um enorme aparato tecnológico e uma quantidade descomunal de energia.

Mas esse, por si só, não pode nem deve ser o argumento final para desacreditar qualquer caso Ufológico. Afinal, há de se considerar as estatísticas de relatos de aparições insólitas que sobrevivem à pesquisa mais apurada. Então, é preciso considerar essa atitude mais como uma vacina para não se deixar ser facilmente enganado, na base do conhecido “querer acreditar”.

A vacina prepara para o próximo item: o material que você está vendo tem fontes sabidamente confiáveis? E que tal uma busca no Google para checá-las? Ocorre que, tal qual muitas lendas urbanas da internet, é comum uma notícia ou informação ufológica ou vir acompanhada do argumento de que segundo o portal noticioso tal, a revista X… Mas uma busca naquele portal ou revista nada revela. E há outro aspecto mais sutil: muitas vezes grande portais e sites de notícias também estão sujeitos a erros ou má apuração, seja qual for o tema. Nesta caso, uma assinatura sutil de uma notícia ou fato mal apurado é que um grande veículo deu uma nota e vários outros deram igualzinha. Sim: nenhum deles tem detalhe algum diferente, novo ou sob outro ponto de vista. Isso é típico de “copy/paste”, de notícia sem apuração alguma.

Também há outro detalhe que busca confundir os leitores. Afirmações como “um cientistas da Nasa”, ou cientistas da universidade “tal”, sem dados concretos como nome completo, data, publicação científica original ou outros que permitam verificação ampla e irrestrita. Isso é típico das picaretagens e é igualmente comum a boatos da Internet sobre outros assuntos, não apenas extraterrestres ou OVNIs.

A questão do filtro

Outra dica de ouro na avaliação de uma informação ufológica diz respeito ao filtro pessoal. Muitos relatos são passados adiante a partir da interpretação pessoal do observador ou da pessoal que está retransmitindo a informação. Mas é preciso entender que há um problema chave com isso. Considerando que nem todo alarde sobre OVNI é mal intencionado, muitas vezes a testemunha ou observador realmente acredita estar vendo ou resgistrando algo insólito. Alguém sem nenhuma experiência ou contato com o tema Ufologia, e sem muito conhecimento pessoal acerca das possibilidades do fenômeno observado, poderia facilmente creditar uma aparição a algo sobrenatural, como fantasmas ou espíritos.

De qualquer forma, para um observador mais experiente, ou com conhecimento técnico acerca da observação em si, pode propor explicações mais prosaicas para a realidade registrada. Como a embarcação que mencionei no início desse post. Algo fora do comum se comporta como tal: não descreve uma trajetória previsível ou similar àquilo que estamos acostumados. Não se comporta como algo conhecido. Se o faz, é mais provável que seja algo conhecido mesmo!

Postagem na página do Facebook do Gold Team de paraquedistas do Exército dos EUA
Postagem na página do Facebook dos Golden Knights, os quais o Gold Team de paraquedistas (do Exército dos EUA) é integrante. Foto: Reprodução.

Essa questão do filtro é importante porque afeta tanto o observador em si quanto quem é responsável por analisar e interpretar a informação antes de transmiti-la. Há pouco tempo um episódio em Milwalkee foi notícia aqui no Portal Vigília depois de provocar alvoroço na Internet, inclusive nos sites de notícias de Milwalkee e adjacências. Muitos deles passaram a creditar a discos voadores as imagens de um grupo de paraquedistas desenvolvendo acrobacias noturnas portando sinalizadores nas botas durante uma exbição aeronáutica. A imprensa nem sequer se deu ao trabalho de apurar o acontecimento da exibição aeronáutica no mesmo dia e local em que as imagens foram captadas. Os jornalistas e apresentadores simplesmente ‘compraram’ a história do mesmo jeito que a receberam.

E, claro, para o filtro pessoal da maioria das pessoas envolvidas, estava ali uma imagem verdadeiramente curiosa e inexplicada. A menos que você fosse um paraquedista ou qualquer pessoa com uma experiência (qualquer uma) com o assunto. Daí a importância de nunca confiar exclusivamente no seu próprio background e filtro pessoal. É fundamental em Ufologia — ou qualquer outro campo de interesse — buscar informações, opiniões e análises em outras áreas do conhecimento.

Seguindo passos lógicos e simples como esses, a chance de reconhecer aqueles 2% ou 5% de casos realmente inexplicáveis aumenta consideravelmente. Na mesma proporção em que será mais difícil cair em armadilhas e pagar o mico de passar adiante aquele linda imagem de uma estrela ou de um meteorito como se fosse um legítimo disco voador.

Para terminar, gosto de lembrar do depoimento de um militar de alta patente da aeronáutica — que inclusive já foi colaborador do Portal Vigília. Ele dizia que “quando você vê um OVNI real você não tem dúvidas do que é. Ele simplesmente não se encaixa naquilo que você ou a maioria das outras pessoas conhece. Ele desafia as leis da física: não deveria estar ali”. Observador experiente, esse militar antes incrédulo passou a se interessar por UFOs quando viu algo parecido com uma “geladeira iluminada, vermelha, flutuando no céu” a poucos metros da janela de seu apartamento.

Para quem desejar se aprofundar um pouco mais no assunto, enveredando pelos principais tipos de erros de interpretação e pegadinhas da Internet (assim como casos verdadeiramente insólitos e até hoje sem explicação), recomendo uma palestra que fiz no Debate Ufológico realizado durante a 3ª SteamCon, em Paranapiacaba (SP), em agosto de 2015. A gravação foi uma cortesia do Portal Burn (que me convidou para o evento), em parceria com o Canal Câmera Off, responsável pelo programa “Ufologia Com Morgana”.

 

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